Estudo mostra que turismo em áreas naturais pode ser sustentável e lucrativo

Publicação está na primeira leva divulgada pelo Hub de Estudos, plataforma de pesquisa bibliográfica sobre economia e meio ambiente lançada pelo Escolhas

O estudo Outdoor Recreation as a Sustainable Export Industry: A Case Study of the Boundary Waters Wilderness (Passeando pela Natureza, uma indústria sustentável, em tradução livre), de Evan E. Hjerpe, publicado na Ecologial Economics, faz uma análise econômica da atividade de turismo em uma área abrangida por três municípios no nordeste do estado de Minnesota, Estados Unidos. Com uma extensão de um milhão de acres e banhada por lagos e rios interligados, é uma das regiões de vida selvagem mais visitada naquele país.

O estudo conclui que a atividade de turismo, em razão do valor ecológico da área, provoca um impacto substancial, gerando benefícios econômicos diretos de US$ 56 milhões somente no ano de 2016.  Mas não fica só nisso. Outros US$ 78 milhões puderam ser calculados como decorrentes da movimentação da economia da região por conta do turismo. Isso sem falar dos 1.100 empregos criados.

O estudo mostra que essa conta se explica porque cada dólar gasto por um turista gera outros 59 centavos de dólar provenientes do aumento da produção de bens e serviços na região, número que se obtém a partir de um multiplicador da produção de 1,59.

Além disso, de cada 100 empregos advindos dos serviços utilizados diretamente pelos visitantes, são criados outros 26 em atividades de suporte das atividades de turismo, o que resulta de um multiplicador de empregos de 1,26.

É importante destacar que o estudo informa que as atividades do chamado “turismo de recreação” é uma indústria com números grandiosos nos EUA, da ordem anual de US$ 887 bilhões, dos quais apenas uma pequena parte é destinado para a visitação de áreas selvagens.

Matriz Insumo Produto

As contas que permitem chegar a esses resultados são feitas a partir da Matriz Insumo Produto (MIP), desenvolvida pelo economista russo Wassily Leontief, a qual permite calcular os impactos gerados pelas relações de troca entre diferentes setores da economia. Se eu compro um quilo de feijão na feira, qual o impacto resultante disso? Ora, para produzir um quilo de feijão eu preciso de sementes, fertilizantes para ajudar no preparo do solo, de um trator e seus implementos para ajudar no plantio, de pessoal envolvido nessa atividade e que vai receber salário. Depois, plantado e colhido o feijão, ele precisa ser ensacado, transportado por caminhão até a feira da cidade onde será vendido. O caminhão terá que ser comprado para tanto, o motorista que o dirige precisa ser pago, sem falar no combustível para que ele rode. Já na feira, a venda do feijão deverá resultar no recolhimento de impostos.

Essas interações são ilustrativas dos complexos fluxos e relações de troca existentes no sistema produtivo, envolvendo os insumos e produtos utilizados para o simples plantio de um pé de feijão. É a MIP que permite que essas interações e encadeamentos do sistema produtivo ganhem uma tradução de mais fácil compreensão, por meio de matrizes, daí seu nome, numéricas, permitindo que os estudiosos a partir dela possam avaliar o impacto de uma determinada atividade.

O Sistema de Contas Nacionais do Brasil conta com uma MIP válida para todo o país, elaborada pelo IBGE, a qual permite uma base comum de dados que pode ser acessada por todos para suas avaliações. O problema é que a nossa MIP é de 2005, e desde lá não foi mais atualizada, uma defasagem que não poderia acontecer e que dificulta a boa realização de estudos econômicos no país.

Conservação

Voltando ao estudo norte-americano, ele também traz a informação de que as atividades de visitação em áreas selvagens incidem principalmente sobre terras públicas, que são legalmente protegidas, concluindo que os impactos econômicos daí resultantes são cruciais na manutenção desse status, o que acabará por beneficiar as futuras gerações que poderão usufruir da conservação desses estoques de recursos naturais.

Isso se torna especialmente importante em um estado como Minnesota, que tinha na exploração do minério de ferro uma das bases de sustentação da sua economia, mas que era responsável por poluir lagos e rios com seus dejetos. Isso levou a que a justiça do estado ordenasse a uma mineradora que parasse de poluir um dos principais lagos do estado, o Lago Superior, o maior lago de água doce do mundo. Nas décadas 80 e 90 do século passado, a pressão de ambientalistas e do governo do estado obrigou outras empresas a fazer o mesmo.

A importância disso pode ser medida pelo fato de que Minnesota é um dos estados mais cobertos por corpos d’água nos EUA, abrigando mais de 22 mil lagos, que cobrem cerca de 12,3 mil km2, cerca de 5% da sua extensão total. Em um desses lagos, o Itasca, fica a nascente do rio Mississipi.

Áreas protegidas no Brasil

Os resultados desse estudo podem ajudar em alguma coisa o Brasil? Claro que sim. O turismo em áreas naturais no país ainda engatinha, apesar do seu enorme potencial. Segundo o Fórum Econômico Mundial, temos “o maior potencial de geração de receita turística pelo uso de seu patrimônio natural”, o que propiciaria recursos para financiar iniciativas de conservação, além de gerar trabalho e renda”, como afirmam Pedro Passos e Marcia Hirota.

Portanto, as conclusões do estudo podem ajudar a fazer com que a gestão das nossas unidades de conservação sejam finalmente percebidas como uma fonte de recursos que pode viabilizar a própria sobrevivência dessas áreas enquanto espaços territorialmente protegidos, justamente no momento em que abundam no Congresso Nacional projetos de lei propondo a supressão de várias delas nos mais diferentes biomas do país.

O estudo faz parte do Hub de Estudos do Instituto Escolhas, uma plataforma online de pesquisa bibliográfica sobre a temática Economia e Meio Ambiente. Com o objetivo de ser uma ferramenta para estimular a pesquisa dentro desses temas no Brasil, o Hub de Estudos inicia seu arquivo com trabalhos publicados em sete importantes revistas internacionais especializadas em Economia e Meio Ambiente. Para acessar o Hub, clique aqui.

Confira o estudo completo aqui: http://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0921800917303452