Texto
Sistemas Alimentares
Notícias
Por Instituto Escolhas
25 abril 2024
4 min de leitura
Produção local de alimentos pode garantir vida mais saudável nas grandes cidades
O que têm em comum as cidades de São Paulo, Recife e Curitiba? A resposta é alarmante: mais da metade dos seus habitantes vive com pelo menos uma doença crônica não transmissível (DCNT), como câncer, diabetes, doenças cardiovasculares e respiratórias. Essas capitais também registram baixo índice de consumo diário de alimentos saudáveis enquanto os alimentos ultraprocessados estão cada vez mais presentes na rotina dos seus habitantes. Considerando esses fatos, o policy brief “Produção de alimentos nas cidades e a promoção da saúde”, lançado nesta quinta-feira, defende que a produção de alimentos nas cidades deve compor o rol de estratégias públicas para frear a atual tendência de adoecimento por DCNT e promover a saúde da população.
Fruto de uma parceria entre o Instituto Escolhas e a Cátedra Josué de Castro de Sistemas Alimentares Saudáveis e Sustentáveis – vinculada a Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (FSP-USP), a publicação traça um panorama da saúde e do consumo alimentar das populações de seis capitais – Rio de Janeiro, Belém, Distrito Federal, além das outras citadas acima – a partir dos dados disponíveis na pesquisa Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico (Vigitel) de 2023 e na Pesquisa Nacional de Saúde (PNS) de 2019. A publicação traz, ainda, recomendações para uma eficaz relação entre produção local de alimentos e estratégias de promoção da saúde por meio da alimentação saudável.
Os dados do policy brief mostram que entre 63% e 68% da população das capitais brasileiras não consome frutas, legumes e verduras regularmente – isto é, cinco ou mais dias da semana. O percentual de pessoas vivendo nas capitais que não atingem o consumo recomendado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) – 400g/dia/pessoa – é ainda mais alto: de 78%, segundo a Vigitel.
“Esse baixo consumo está, muitas vezes, vinculado ao preço dos alimentos in natura, especialmente nos segmentos sociais em situação de vulnerabilidade econômica. A produção de alimentos nas áreas urbanas tem um enorme potencial para atacar essa questão, colaborando para a redução dos custos de transporte e comercialização. E estamos falando de uma colaboração efetiva: estudos do Escolhas já mostraram que a agricultura urbana e periurbana na região metropolitana de São Paulo tem, por exemplo, potencial para abastecer 20 milhões de pessoas por ano com legumes e verduras. Em Belém, a agricultura em espaços ociosos poderia produzir mais de 20 mil toneladas de hortaliças e macaxeira em 344 hectares. Esse volume abasteceria 1,7 milhão de pessoas por ano, ou seja, toda a população da cidade”, explica Jaqueline Ferreira, gerente de portfólio do Escolhas.
Para além do preço, moradores de áreas periféricas também enfrentam a baixa presença de estabelecimentos que vendem produtos in natura, enquanto predominam aqueles que vendem produtos ultraprocessados nesses territórios. O impacto disso na saúde é inevitável.
”Pesquisas científicas não deixam dúvidas de que a ingestão adequada em quantidade e frequência de frutas e vegetais variados é protetora da saúde, reduzindo o risco de desenvolvimento de DCNTs, inclusive. Em contrapartida, o consumo frequente de ultraprocessados é um importante fator de risco para o desenvolvimento dessas doenças. E o cenário que vemos nas capitais estudadas é justamente o contrário do que desejaríamos: baixa ingestão de frutas e vegetais, e crescente de ultraprocessados, resultando em altos níveis de doenças crônicas. Para podermos reverter esse cenário, além de estratégias de educação alimentar e nutricional, que podem ajudar as pessoas a fazer melhores escolhas alimentares, é fundamental que os alimentos in natura sejam produzidos e disponibilidades nas cidades, perto das pessoas, melhorando as possibilidades de acesso físico e financeiro a esses alimentos”, destaca Nadine Marques, pesquisadora da Cátedra Josué de Castro.
Recomendações
O policy brief chama a atenção para a responsabilidade da gestão pública, a quem cabe não apenas fomentar a produção de alimentos nas cidades, mas também implementar ações para que tais alimentos cheguem aos consumidores, especialmente àqueles em situação de vulnerabilidade socioeconômica.
Um exemplo é a cessão de áreas ociosas, como lotes vazios e áreas sob linhas de transmissão, para coletivos de agricultores e associações. Além das hortas escolares, equipamentos públicos como hospitais e unidades prisionais, também podem ser espaços de produção de alimentos. Outra recomendação trazida pela publicação é a aquisição de alimentos da agricultura urbana via compras públicas institucionais, em especial para equipamentos de segurança alimentar, como restaurantes populares e cozinhas solidárias.
“A produção de alimentos pode transformar as cidades de forma radical, melhorando a qualidade de vida nos espaços urbanos. Mas, para isso acontecer, a gestão pública, em seus diferentes níveis, precisa se comprometer com essa agenda e reconhecer sua importância dentre as estratégias de promoção da saúde e combate à fome”, completa a gerente do Escolhas.
Notícias relacionadas
Cuidar da Caatinga garante água para milhões de pessoas. Cuide dela antes que acabe.
Novos projetos de lei sobre fitoterápicos contam com subsídios técnicos do Instituto Escolhas
Vitor Marinho é o novo doutor em Economia da Cátedra Escolhas!
Martin Scorsese e as mudanças climáticas