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Por Instituto Escolhas
12 fevereiro 2026
4 min de leitura
Cânhamo: o que é e por que esta planta milenar é tão diferente da maconha?
O que é o cânhamo? A chave é o THC!
O cânhamo é uma variedade da planta cannabis sativa que se difere da maconha pelo teor de THC (Tetraidrocanabinol), o composto químico responsável pelo efeito psicoativo.
Enquanto a maconha é cultivada para apresentar altas concentrações de THC, o cânhamo possui teores mais baixos, definidos em lei, geralmente em torno de 0,3% e 1%. Essa parametrização técnica foi incorporada aos marcos regulatórios como critério para distinguir o cânhamo como cultura agrícola não psicoativa, permitindo sua liberação para usos industriais. Tal distinção normativa foi central para as reformas legislativas que, nas últimas décadas, reabriram os mercados nacionais e internacionais de produção de cânhamo.
Para que serve o cânhamo?
O grande diferencial do cânhamo está na sua versatilidade. Praticamente todas as partes da planta podem ser utilizadas, o que proporciona soluções mais sustentáveis em diversos setores. Entre os principais usos, destacam-se:
- Cânhamo e indústria farmacêutica: a partir das flores e brácteas é extraído o óleo de CBD (Canabidiol), principal matéria-prima utilizada na fabricação de produtos medicinais e farmacêuticos à base de cânhamo.
- Cânhamo na indústria têxtil: das fibras e dos caules do cânhamo são produzidos tecidos resistentes e mais duráveis que o algodão, sem exigir o uso de agrotóxicos no cultivo.
- Sementes de cânhamo na indústria alimentícia: sementes de cânhamo são altamente nutritivas, ricas em ômega-3 e ômega-6, sendo utilizadas em barrinhas, leites vegetais e suplementos alimentares.
- Cânhamo e construção civil: mistura de fibras e cal cria o bioconcreto, material resistente, leve e ecologicamente correto.
Cânhamo no mundo
O mercado global de cânhamo voltou a crescer a partir da década de 1990, quando países europeus começaram a rever suas políticas sobre o cultivo da planta para fins industriais. Esse processo de flexibilização se expandiu progressivamente para o Canadá e os Estados Unidos, alcançando mais recentemente os países da América Latina.
Esse movimento abriu espaço para investimentos em produtos inovadores que exploram as propriedades únicas da planta, atendendo à crescente demanda por soluções sustentáveis em diversos setores.
Cânhamo no Brasil
No Brasil, o cultivo de cannabis foi proibido em 1938 pelo Decreto-Lei nº 891 (Lei de Fiscalização de Entorpecentes), mas mudanças vêm ocorrendo nas últimas décadas. Em 2015, foi apresentado o Projeto de Lei nº 399, de autoria do deputado Fábio Mitidieri (PSD-SE), que busca regulamentar a produção de cânhamo para fins medicinais e farmacêuticos. Apesar de aprovado em comissão na Câmara dos Deputados em junho de 2021, o projeto ainda aguarda deliberações na Câmara e no Senado.
A Anvisa, por sua vez, tem promovido avanços significativos na flexibilização do uso medicinal da cannabis: em 2015, retirou o CBD da lista de substâncias proibidas e regulamentou a importação de medicamentos; nos anos seguintes, aprovou o primeiro medicamento combinando CBD e THC, estabeleceu normas para comercialização em farmácias e simplificou as regras de importação, ampliando o acesso aos pacientes.
Em 2023, o estado de São Paulo regulamentou a distribuição de medicamentos à base de cannabis pelo SUS. E, em novembro de 2024, o STJ determinou que a Anvisa regulamentasse o plantio, o cultivo, a industrialização e a comercialização do cânhamo exclusivamente para fins medicinais e farmacêuticos. A regulamentação foi publicada em janeiro de 2026, estabelecendo o limite de 0,3% de THC e estabelecendo critérios para o controle do cultivo de cânhamo e a produção de remédios à base de cannabis, com regras de segurança e fiscalização.
O que o Brasil pode ganhar com o cultivo do cânhamo?
Em 2030, a demanda anual por produtos à base de cânhamo terá crescimento intenso. Para a indústria farmacêutica, o aumento da demanda será de 494% em relação a 2023.
Além da indústria farmacêutica, o mercado internacional de sementes da planta, usadas pelas processadoras de alimentos, deve crescer 264% entre 2023 e 2030. O mercado internacional de fibras, usadas na fabricação de papéis, tecidos e biocompostos, terá uma expansão de 26% no mesmo período.
Para atender à demanda de cânhamo projetada para 2030, o Brasil precisa plantar em 64,1 mil hectares e investir R$ 1,23 bilhão, segundo dados do Instituto Escolhas. Um esforço que poderia gerar, até 2030, receitas líquidas de R$ 5,76 bilhões, além da criação de 14.485 empregos no setor.
O cânhamo é uma planta milenar cuja regulação ainda está em debate no Brasil. Da indústria têxtil à farmacêutica, seu potencial é imenso, e o país tem a chance de se tornar protagonista em um mercado em plena expansão. Mais do que uma alternativa econômica, o cânhamo representa uma oportunidade para desenvolver soluções sustentáveis e impulsionar novos setores produtivos.
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