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Por Instituto Escolhas
23 fevereiro 2026
3 min de leitura
Martin Scorsese e as mudanças climáticas
Por Sergio Leitão
O cineasta Martin Scorsese, quando criança, sofria de graves crises de asma. Em um documentário disponível na Apple TV+, ele conta que seu pai encontrou uma solução simples para amenizar o sofrimento do filho durante os sufocantes verões de Nova York: levá-lo ao cinema. As salas tinham ar-condicionado — ainda uma novidade à época — e permitiam que o garoto respirasse melhor e passasse tardes mais confortáveis.
Foi nesse ambiente climatizado que nasceu não apenas um alívio para a asma, mas também uma vocação. Scorsese assistiu aos grandes filmes da chamada era de ouro do cinema americano nos anos 1950. O que começou como estratégia de cuidado tornou-se paixão — e, mais tarde, uma das carreiras mais influentes da história do cinema.
Naquele período, os cinemas atraíam o público com cartazes convidativos: “Entrem, temos ar-condicionado”. Os ingressos eram baratos, acessíveis inclusive às famílias mais pobres. Havia algo de democrático naquela experiência: conforto térmico e cultura caminhavam juntos no coração das cidades.
Hoje, essa realidade mudou radicalmente. Os cinemas tornaram-se caros, migraram para shoppings centers e deixaram de ocupar os centros urbanos como espaços populares de convivência. Já não são refúgios acessíveis para quem deseja escapar do calor extremo — seja em Nova York, seja em Fortaleza, seja em qualquer grande cidade brasileira.
E é justamente aqui que a história de Scorsese encontra o debate contemporâneo. As mudanças climáticas deixaram de ser um tema abstrato para fazer parte do cotidiano das pessoas. Ondas de calor cada vez mais intensas e frequentes impõem uma nova urgência: como garantir conforto térmico à população?
A discussão ganha contornos dramáticos quando pensamos nas escolas públicas brasileiras. O calor extremo já não é um fenômeno restrito ao Nordeste; atinge com força cidades como São Paulo e até municípios do Sul, historicamente associados ao frio. No entanto, muitas escolas — especialmente as nordestinas — apresentam graves problemas estruturais: ventilação inadequada, materiais que retêm calor, projetos arquitetônicos que ignoram a realidade climática.
Segundo o Banco Mundial, as crianças e adolescentes dos “10% de municípios mais quentes do Brasil perdem, em média, 1% da aprendizagem, por ano, devido ao calor excessivo”, o que representará, ao final do ensino médio, uma perda acumulada de até 1,5 ano letivo.
Diante disso, surge a pergunta inevitável: como discutir o custo da instalação de ar-condicionado nas escolas públicas? Quanto isso representará nas contas de energia? E, sobretudo, qual o custo de não fazer nada?
Conforto térmico não é luxo. É condição básica para aprender, para respirar, para se concentrar. Foi o ambiente refrigerado de um cinema que permitiu a uma criança asmática atravessar os verões de Nova York e, indiretamente, transformar-se em um dos maiores cineastas do mundo.
Enquanto isso, dados do Anuário Brasileiro da Educação Básica 2025, do Todos Pela Educação, mostram que apenas 38,7% das salas de aula das escolas públicas do país contam com ar-condicionado, percentual que cai para 29% na Bahia, enquanto em Minas Gerais é de apenas 11,7%.
Que lição tiramos disso?
Se o conforto térmico ajudou a formar Martin Scorsese, o que estamos fazendo para garantir que crianças nordestinas — e brasileiras em geral — tenham condições mínimas de aprendizagem em um planeta cada vez mais quente? A adaptação às mudanças climáticas não é apenas uma pauta ambiental. É uma pauta educacional, social e civilizatória.
A pergunta que se impõe ao poder público não é apenas quanto custa instalar ar-condicionado nas escolas. A pergunta real é: quanto custa comprometer o futuro de uma geração inteira por não reconhecer que o mundo mudou — e continuará esquentando?
Garantir escolas termicamente confortáveis é, antes de tudo, garantir oportunidades. Talvez o próximo grande nome da cultura, da ciência ou da política esteja hoje sentado em uma sala de aula abafada. A diferença entre sufocamento e descoberta pode ser, literalmente, uma corrente de ar frio.