Precificação do carbono é tema de evento com iniciativa privada e instituições financeiras

Promovido pela Febraban, evento contou com apresentação de estudos e discussão sobre riscos de carbono na gestão empresarial  

Precificar o carbono é um mecanismo fundamental para a incorporação das externalidades ambientais, capaz de induzir novas tecnologias que tornem os negócios existentes mais eficientes e menos agressivos ao meio ambiente. Essa foi a premissa que norteou o 53º Café com Sustentabilidade, evento promovido ontem (24/4), pela Federação Brasileira de Bancos (Febraban), em São Paulo.

Com o objetivo de discutir aspectos relevantes relacionados à responsabilidade socioambiental e seus impactos sobre os negócios, a sociedade e o meio ambiente, o evento reuniu representantes de empresas e instituições financeiras para a apresentação de dois estudos. O primeiro, realizado em parceria com o Centro de Estudos em Sustentabilidade da Fundação Getulio Vargas (GVCes), que identificou tendências para empresas e bancos ligadas às emissões de gases de efeito estufa (GEE) e avaliou, por meio de simulações, o potencial impacto da precificação de carbono nos resultados de companhias de setores selecionados. O segundo, elaborado em parceria com a organização Carbon Disclosure Project (CDP), mapeou práticas adotadas por empresas brasileiras para a gestão dos riscos e oportunidades da mudança do clima.

Com apresentação de destaque, o primeiro estudo, Gestão e precificação do carbono: riscos e oportunidades para as instituições financeiras, apresentado por Annalise Vendramini, gestora do programa de finanças sustentáveis do GVCes, tem como objetivo discutir os principais impactos da precificação em setores econômicos e compreender como os bancos e empresas estão se preparando para lidar com os riscos relacionados às mudanças climáticas.

Para isso, foram elaboradas duas análises. Na análise quantitativa, o estudo buscou entender qual teria sido o impacto financeiro de empresas brasileiras caso houvesse um processo de precificação de carbono no país no período de 2010 a 2015. Já a análise qualitativa objetivou a compreensão das atividades dos bancos e empresas do setor produtivo para saber o que estão fazendo para se preparar para a questão do risco-carbono.  Segundo Vendramini, a ideia do trabalho foi identificar setores sensíveis da economia que precisam ter atenção em relação às questões do clima e, principalmente, à precificação.

“Quando falamos de risco-carbono, estamos olhando para dois cenários. Temos o risco de transição, que consiste em sair de uma transição fortemente baseada em carbono para uma economia de baixo carbono. Isso gera riscos de natureza política, riscos tecnológicos e de mercado. E também temos os riscos físicos, ou seja, aqueles de fato associados às mudanças do clima, como os eventos climáticos extremos”, explica.

Dentro da gestão dos riscos climáticos, Juliana Lopes, diretora executiva da CDP para a América Latina, afirma que dar transparência às informações é fundamental para mudar as práticas empresariais. De acordo com dados do estudo Práticas empresariais para gestão do risco, apenas 8% das 71 empresas avaliadas possuem processos específicos de gestão de riscos climáticos. A maior parte (65%), integra esses riscos na gestão da companhia como um todo, e 25% das empresas não possuem processos documentados de avaliação de riscos.

Em relação aos bancos, Lopes traz pontos de atenção: dentre as 63 instituições que apontaram que riscos causados na regulação podem impactar no negócio, 37 não adotam a precificação interna de carbono nem pretendem fazê-lo nos próximos dois anos. Apenas 15% das empresas que usam preço interno de carbono globalmente divulgam as premissas que consideram ao determinar variações nos níveis de preço ao longo do tempo. As 85% restantes assumem um preço estático ou não revelam suas premissas.

Além dos dois estudos, o evento contou com a participação de Ana Carolina Szklo, diretora de desenvolvimento institucional do Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS) para falar sobre o apoio do setor privado à precificação de carbono. Após as apresentações, Azim Akbaraly, especialista em responsabilidade social corporativa do BNP Paribas Brasil, João Carlos Augusti, gerente de meio ambiente florestal da Fibria, e Renato Eid Tucci, responsável pela área de estratégia beta e integração ESG do Itaú Asset Management, deram início ao painel Mudanças climáticas, precificação do carbono e NDCs: como viabilizar uma revolução nos negócios?, com moderação de Paula Peirão, coordenadora do programa de finanças sustentáveis do GVCes.  

Preço do carbono

De acordo com a coordenadora do GVCes, o estudo não tinha como objetivo calcular o preço do carbono, portanto, para chegar aos resultados utilizou duas pesquisas já existentes. A primeira se atenta ao agregado da economia brasileiras em dois cenários: tributação e cap trade (sistema de comércio de emissões). Para obter os valores, o estudo analisou a NDC brasileira e os custos de redução de emissões de setores da economia e, como resultado, o cenário de tributação apontou uma variação de US$10/tCO2 a US$14/tCO2. Em outra pesquisa utilizada, que considera o preço necessário para atingir as metas do Acordo de Paris, esses valores variam de US$40/tCO2 a US$80/tCO2 e US$50/tCO2 a US$100/tCO2, para 2020 e 2030, respectivamente.

Com isso, Vendramini explica que, ao olhar o cenário de tributação, a simulação mostra que 42,9% das instituições avaliadas (companhias públicas que publicam seus inventários de emissões de GEE) tiveram impacto de até 0,5%, 81% com impacto de até 3% e somente 9,5% obtiveram impactos acima de 10% sobre a Ebitda (Lucros antes de juros, impostos, depreciação e amortização). “A validade do estudo é apontar as fragilidades de empresas e setores que precisam prestar atenção com relação ao potencial do risco climático sobre seus resultados financeiros para as empresas e os potenciais riscos de sua carteira de crédito para os bancos”, afirma.

Trabalhando o tema da precificação sobre as emissões de carbono, o Instituto Escolhas desenvolveu o estudo Impactos Econômicos e Sociais da Tributação do Carbono no Brasil, em que afirma, entre as possíveis ações que podem contribuir para a construção de uma economia de baixo carbono e o cumprimento das metas assumidas pelo país no Acordo de Paris, destaca-se a utilização de fontes de energia mais limpas. Para isso, o estudo aponta a adoção de uma Taxa de Carbono de US$36/tCO2e sobre os combustíveis fósseis no Brasil, focado na manutenção da neutralidade da carga tributária.

A neutralidade seria obtida pela simplificação de um dos mais complexos impostos existentes no Brasil, conhecido pela sigla PIS-Cofins. De acordo com o estudo, a Taxa de Carbono Neutra de US$ 36/tCO2e produz impactos positivos para a economia, com crescimento de 0,5 % do PIB, criação de 556 mil postos de trabalho e uma emissão evitada de 4,2 milhões de toneladas de CO2e2.

Na América do Sul e México, segundo Vendramini, já existem iniciativas para a precificação do carbono. “A discussão sobre precificação do carbono está amadurecendo e atingindo uma nova etapa. O Brasil está caminhando para esse processo. No âmbito mundial, mais de 40 países já possuem métodos para precificar o carbono. Essa é a sinalização de que a precificação vem para ficar”, conclui.