Entrevista do mês: William Wills

Zerar emissões do setor elétrico no Brasil teria impacto desprezível no PIB

Coordenador do estudo Quanto custa zerar as emissões da geração de eletricidade no Brasil até 2050?, que o Instituto Escolhas lança neste mês, o engenheiro eletrônico William Wills afirma que ter uma matriz elétrica sem emissões de gases de efeito estufa não causaria um impacto significativo nem no PIB nem na renda das famílias brasileiras.

Pós-doutor no Programa de Planejamento Energético da COPPE/UFRJ e sócio-diretor da EOS, empresa de consultoria na área de energia e mudança climática, Wills afirma que essa é uma boa notícia, pois o Brasil se comprometeu a zerar suas emissões até o final do século, e isso inclui o setor elétrico. Dessa forma,os investimentos para tanto devem ser pensados com antecedência. Além disso, o estudo do Escolhas mostrará que a transição para um setor elétrico com zero emissões de carbono no Brasil até 2050 teria um importante papel na redução de emissões do setor de energia.

Para a realização do trabalho, o Escolhas buscou, em primeiro lugar, entender como a economia brasileira e em particular a indústria irão se comportar no longo prazo, em um cenário otimista de crescimento para o país e em outro mais pessimista, e como isso pode afetar a estrutura da demanda de energia. Também levou em consideração a segurança energética no sistema elétrico, o que inclui questões relativas à variabilidade das fontes de energia e influência das mudanças climáticas.

Os cenários que serão apresentados no estudo foram construídos a partir do IMACLIM-R BR, um modelo de equilíbrio geral dinâmico, desenvolvido especificamente para avaliar os impactos de políticas climáticas na economia brasileira, o qual Wills desenvolveu para sua tese, trabalhando na CIRED/França, entre 2010 e 2011.

Instituto Escolhas – Quais são os principais objetivos da realização desse estudo?

William Wills – O estudo foi pensado com dois objetivos principais. O primeiro era calcular o custo para a sociedade e para a economia brasileira (PIB, balança comercial, emprego, renda familiar, consumo de energia) de uma matriz elétrica de emissão zero. Queremos trazer para a sociedade informações que mostrem se é possível para o país ter essa matriz limpa a custo baixo, pois temos uma discussão entre governo e ONGs sobre os custos e a viabilidade dessa proposta. Sabendo os custos, a sociedade pode decidir o que quer. O outro objetivo é entender, no contexo da crise do ano passado, em um contexto macroeconômico, o papel da indústria no Brasil e seu o impacto na demanda de energia em cenários otimistas e pessimistas de desenvolvimento. Isso porque, se tivéssemos um grande crescimento industrial, poderíamos precisar de mais oferta de energia.

Escolhas – Quais foram os resultados do estudo? É possível zerar as emissões brasileiras em eletricidade até 2050?

Wills – A conclusão é que sim, seria possível. Custaria um pouco mais caro em termos setoriais, pois seriam necessários mais investimentos no setor elétrico, o que impactaria também o custo da energia para a sociedade. Mas esse impacto não é relevante, é desprezível em termos estatísticos, tanto no PIB quanto na renda das famílias.

Escolhas – Sabemos que as emissões do setor elétrico não são o maior problema brasileiro em termos de emissões de gases de efeito estufa. Por que, então, investir para zerar as emissões do setor?

Wills – O conteúdo de carbono da eletricidade no Brasil está entre os mais baixos do mundo, já que a maior parte da matriz é de fontes renováveis, principalmente hidroelétrica. Há outros setores onde possivelmente seria possível reduzir emissões a custos mais baixos. Mas o Brasil se comprometeu, no Acordo de Paris, a reduzir a zero suas emissões até o final deste século, o que inclui o setor elétrico. Os investimentos nessa área, porém, são de longo prazo e a  vida útil das usinas é de décadas. Por isso, idealmente, quanto mais cedo o país conseguir direcionar os investimentos para as fontes renováveis, melhor.

Escolhas – Quais são as principais fontes limpas nas quais o Brasil deveria apostar?

Wills – Além das hidrelétricas, que são uma polêmica à parte, são três tipos principais para o Brasil: eólica, que tem crescido muito e tem um podetencial ainda maior; solar, tanto a distribuída (produzida no próprio local – casa, comércio etc.) como a centralizada (usinas dedicadas a isso); e a biomassa, que é importante no Brasil, seja em uma geração elétrica integrada com a produção de outros biocombustíveis – como no caso do etanol, onde já se usa o bagaço da cana para produzir eletricidade, mas daria para usar mais, como outras fontes que podem surgir, como lenha de eucalipto, com plantações voltadas para a geração elétrica.

Escolhas – O estudo levou em conta em seus cenários a segurança energética. O que é isso e por que é importante?

Wills – Segurança energética é você garantir que, no futuro, conseguirá gerar eletricidade suficiente para atender a demanda do país em qualquer momento, mesmo em um ano seco e quente, num dia com muitas nuvens e sem vento. Neste estudo, a Empresa de Pesquisa Energética (EPE) nos ajudou a calcular a potência complementar, ou seja, o quanto a mais de capacidade instalada precisamos ter, para garantir a segurança energética em todos os cenários.