Entrevista do mês: Sylvia Coutinho

UBS - Sylvia Brasil Coutinho, PRESIDENTE DO UBS BRASIL

Brasil precisa ser verde para crescer e ganhar mercado

Para presidente do UBS Brasil, ativos ambientais e agronegócio são a maior aposta para país ter destaque no mundo globalizado

Presidente do banco suíço UBS no Brasil, Sylvia Coutinho acredita que os ativos ambientais e o agronegócio estão entre as maiores vantagens competitivas do Brasil no mundo globalizado e devem ser pensados juntos. Engenheira agrônoma formada pela Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, da Universidade de São Paulo, ela acredita que o país pode ser líder em ambas as agendas e, com isso, atrair capital externo. Mas não pode fazer na agropecuária como a China, que se tornou uma potência industrial, mas agora vê a expectativa de vida de sua população cair por conta da destruição ambiental que causou no caminho. “O Brasil precisa criar uma marca e ser reconhecido como verde. Recebemos uma herança, mas precisamos decidir o que faremos com ela. Vamos gastar tudo ou aumentar e melhorar o que recebemos?”, provoca.

Escolhas – O que seria uma visão de futuro para o Brasil, levando em conta a agenda ambiental?

Sylvia Coutinho – Quando pensamos em um mundo globalizado, vemos que tanto empresas quanto países precisam pensar em vantagens competitivas. As do Brasil começam por ser o maior lote de terra do mundo, com os maiores e mais preciosos ativos ambientais. O país tem 15% das florestas nativas e 12% da água doce do planeta, uma biodiversidade incrível, que inclui a maior diversidade de árvores do mundo, que precisamos preservar. Tem um território enorme onde, em algumas regiões, há até três safras por ano. O Brasil se tornou uma potência do agronegócio, concentrando 7% da produção global e deverá chegar, nos próximos anos, a 10%. Temos potencial para alcançar 30% da produção agropecuária mundial e sem precisar desmatar. Há cerca de 90 milhões de hectares de pastagens degradadas, que poderiam ser intensificadas e dar espaço para plantar grãos e florestas, para papel e celulose, sem destruir o meio ambiente. Só vamos crescer e ganhar mercado para o agronegócio se formos verdes, pois o consumidor internacional tem que querer comprar o produto brasileiro. A agenda ambiental e o agronegócio andam juntos.

Escolhas – Há outras áreas também com potencial na economia brasileira?

Coutinho – O país conta, ainda, com uma grande população, que é um mercado consumidor potencial muito grande para a área de serviços. O fato dessa população ser bastante homogênea, com uma só língua, por exemplo, facilita. Há um atraso enorme na área de infraestrutura, que também é um potencial relacionado à questão da sustentabilidade, como as questões de mobilidade, por exemplo. Estamos tentando atrair investimentos externos e ter um potencial verde atrai capitais com esse interesse.

Escolhas – Voltando ao agronegócio, é possível criar mecanismos para viabilizar o crescimento do setor com um uso mais eficiente e sustentável do solo?

Coutinho – O agronegócio é o setor que mais cresceu no Brasil e é o único que aumentou em termos de produtividade. Sem muita proteção, conseguiu crescer e pode mais. Os mecanismos devem ser voltados para continuar aumentando a produtividade, além de resgatar áreas degradadas e fazer plantio de florestas, como prevê nossa NDC [compromisso do país de redução de emissões na Convenção do Clima].

Escolhas – É possível e viável criar mecanismos de mercado, em escala considerável, para financiar uma agenda de proteção do meio ambiente?

Coutinho – A questão é como criar os incentivos corretos. A equação precisa ser estudada mais a fundo. Estamos tentando entender a questão socioeconômica para conseguir monetizar e atrair capitais externos para crescer de maneira sustentável, antecipando ao máximo a agenda do desmatamento zero até chegar ao zero total.

Escolhas – Qual o papel do sistema financeiro na adoção de estímulos para a adoção de padrões de sustentabilidade por parte dos setores produtivos?

Coutinho – O setor financeiro tem um papel fundamental para atrair capital externo, pois o Brasil não tem poupança interna para acelerar a pauta de investimentos. Ele intermedia oferta e demanda de recurso. Assim, cabe ao setor financeiro tentar juntar e criar mecanismos para facilitar esse fluxo. Atualmente, os dois segmentos onde esses recursos externos poderiam entrar seriam o agronegócio e a infraestrutura. Um aspecto muito importante seria tentar viabilizar a equação econômico-financeira para questões como valorar a floresta em pé.

Escolhas – Você acredita na viabilidade de se ganhar dinheiro promovendo ações que promovam o uso sustentável dos recursos naturais?

Coutinho – No futuro, quando se entender mais sobre os serviços ambientais, vamos nos perguntar como permitíamos a destruição ambiental já que a produção depende disso. Hoje há uma nova geração que quer investimentos com impacto positivo. E um consumidor que se dispõe até a pagar mais por esses produtos. O mesmo vai acontecer com os produtos agrícolas.

Escolhas – Nesse mundo com novos investimentos, qual papel caberá ao Brasil? Além do agronegócio, haverá espaço para disputarmos com a China a indústria pesada? Vamos competir com a Índia no mercado de computadores. Vamos fazer um Vale do Silício aqui? Qual o nicho que vai sobrar para garantir empregos para os jovens no futuro?

Coutinho – Em primeiro lugar, precisamos pensar em não fazer com a agricultura brasileira o que a China fez com a indústria. Naquele país a expectativa de vida diminuiu por conta da destruição do meio ambiente causada pela industrialização. Podemos ser o silo do mundo, garantindo segurança alimentar global. Há tecnologia para isso. A Embrapa tem estudos mostrando a viabilidade, por exemplo, da integração lavoura-pecuária-floresta. Por outro lado, quando se puder precificar o carbono globalmente, nossa indústria poderá voltar a ser competitiva, o aço brasileiro poderá competir com o da China, que usa energia com base em fontes fósseis. Na área de tecnologia também temos potencial, o brasileiro é bastante criativo em desenvolvimento tecnológico mais especializado e poderíamos competir com a Índia, mas precisamos resolver problemas como os custos trabalhistas. No Brasil, se contrata uma pessoa por R$ 1, mas gasta-se R$ 2. Em outros países, esse gasto é de, no máximo, 30% a mais. Precisamos de uma visão de longo prazo.

Escolhas – Incorporar o preço do carbono na economia poderia ser feito a partir da taxação das emissões de gases de efeito estufa. Há espaço para isso no país?

Coutinho – Sim, um imposto de carbono pode ser usado para incentivar alguns setores e para desincentivar aqueles que sejam poluentes, ou seja, pode ser feito sem aumentar a carga tributária, que não pode ser aumentada. O país precisa gastar melhor e parar de pensar apenas no curto prazo. Se o agronegócio é o diferencial, precisa investir em malha ferroviária e fluvial.

Escolhas – A descarbonização da economia está acontecendo globalmente?

Coutinho – Em alguns países mais do que em outros, inclusive puxado pelo setor privado, por conta da pressão do consumidor. Esse processo deve acelerar bastante, porque os problemas climáticos também estão acelerando. É uma agenda que veio para ficar e será puxada pela nova geração, já que a atual não está fazendo o suficiente. O ponto é como criar os mecanismos financeiros para viabilizá-la.

Escolhas – E no Brasil, o que falta para tanto?

Coutinho – O Brasil precisa criar uma marca e ser reconhecido como verde. Recebemos uma herança, mas precisamos decidir o que faremos com ela. Vamos gastar tudo ou aumentar e melhorar o que recebemos? Sou uma ambientalista de coração, dirigente executiva de banco e engenheira agrônoma tentando ter uma visão pragmática. Acredito que o Brasil precisa ser líder na agenda ambiental com ações e resultados. Seria um case global.