Entrevista do mês: Roberto Rodrigues

Tecnologia e competitividade frearão desmatamento no país

Para o ex-ministro da Agricultura Roberto Rodrigues (entre 2003 e 2006), a questão econômica dificulta o combate ao desmatamento, mas a chegada de novas tecnologias e a competitividade levarão à sua redução. Essas mudanças de padrão de produção, porém, aumentarão as diferenças entre grandes e pequenos produtores, fazendo com que o governo precise se planejar para minimizar as desigualdades. Para Rodrigues, a solução tecnológica para esse setor, principalmente a integração lavoura-pecuária, virá da agricultura, mais moderna e capitalizada. Coordenador do Centro de Agronegócio da Fundação Getulio Vargas (GVAgro), o engenheiro agrônomo foi também secretário de Agricultura do Estado de São Paulo, de 1963 a 1966, e presidente da Organização Internacional de Cooperativas Agrícolas.

Escolhas – É possível acabar com o desmatamento no Brasil? Por que ele persiste?

Roberto Rodrigues – É possível, mas o desmatamento não é estancado por causa do seu caráter econômico. Hoje é mais barato desmatar o Cerrado do que comprar tecnologias disponíveis. Além disso, o Estado não tem os instrumentos necessários e a sociedade organizada não tem muito interesse no assunto. É preciso apenas acabar com o desmatamento ilegal e dar rigor aos instrumentos de fiscalização do desmatamento legal. Acredito que ainda poderíamos utilizar parte do Cerrado, onde há alta aptidão agrícola. O Brasil tem um papel fundamental para o abastecimento mundial e, se pararmos totalmente o desmatamento, não conseguiremos cumprir. Mas é preciso lembrar que hoje a sustentabilidade não é um tema conjuntural, mas limitante à competitividade. Reduzir o desmatamento é inevitável. É possível freá-lo, mas também abrir áreas residuais mais aptas à agricultura, com a condição de que a tecnologia seja central.

Escolhas – O que é necessário para garantir o aumento da produção freando o desmatamento?

Rodrigues – Nossa pecuária é pouco desenvolvida. Quem tem 1,5 boi por hectare “veve”, ou seja, sobrevive, não tem necessidade econômica de mudar. Não progride, mas vive. Para que mude, é preciso convencimento e necessidade econômica. A evolução da pecuária está fora dela, está na agricultura. A integração lavoura-pecuária (iLP) vai triunfar no Brasil por necessidade econômica. Onde chove no inverno, dá para ter duas safras por ano (soja, trigo, milho, sorgo, algodão etc.). Onde não chove (Sudeste, leste do Nordeste, parte do Norte), isso não acontece. É um contraponto entre brasileiros, é injusto. Por isso, a iLP, com carne e agricultura, é o ovo de colombo. Acredito que será o grande motor de mudança na pecuária brasileira. O pecuarista terá que investir na recuperação dos pastos e, quem não fizer, vai perder. Quem não tiver tecnologia, vai quebrar. E a iLP vem da agricultura e não da pecuária, porque o agricultor tem tecnologia e vontade – está plantando pasto, enquanto o pecuarista tradicional “veve”. Esse é um fator primordial para a redução do desmatamento. Outro fator de falta de competitividade do produtor é a logística. Se não consegue bom preço por falta de logística, abre mais um pedacinho de mato para ter mais escala.

Escolhas – Além da fiscalização, qual é o papel do governo para viabilizar e acelerar esse processo de mudança?

Rodrigues – Precisa tornar o Plano de Agricultura de Baixo Carbono (Plano ABC) – parte da política de mudanças climáticas brasileira voltada ao setor agropecuário – um programa de governo prioritário. Hoje, quem conhece e tem tecnologia para implementar faz, que não tem, não faz. Falta informação e tecnologia. Um estudo do Observatório ABC, ligado ao GVAgro, mostrou que há um impedimento de renda para investir em tecnologias de baixo carbono em regiões onde elas seriam prioritárias. Parece que o governo está incluindo a política nacional de biocombustíveis (Renovabio) como tecnologia ABC, o que é fantástico. Se viger, haverá uma grande mudança na área energética. O etanol de milho, que pode entrar em iLP, poderá ter uma alavancagem em novos moldes, mais sustentáveis. O etanol de milho tem um resíduo excelente para boi, galinha, frango, só não serve para vaca de leite. Quem tem gado, vai querer plantar milho para receber ração. A integração lavoura-pecuária pode ser uma indústria energética.

Escolhas – Qual o papel da tecnologia na implantação de uma agricultura mais sustentável?

Rodrigues – O que vem vindo de inovação tecnológica é tão disruptivo que muitos produtores não conseguirão aprender a gerir. A disparidade vai aumentar entre os grandes e pequenos. Atualmente, o agricultor tem que ter sistema de integração de produção, mas apenas os grandes podem contratar equipes e equipamentos para implantar. Estamos falando de tratores, drones, colhedeiras operadas a partir do escritório, já em 2020. A tecnologia vai atender ao grande produtor, mas a permanência do pequeno produtor é essencial para o tecido social. A concentração não é desejável. Outra questão é que a universidade vem criando especialistas para cada área, mas a agricultura precisa de uma visão holística para ser sustentável.

Escolhas – Como essa lacuna tecnológica pode ser resolvida para que possa beneficiar também os pequenos produtores?

Rodrigues – Há dois caminhos possíveis. Os países ricos escolheram os subsídios, mas o Brasil tem pouca eficácia nisso. Há alguns programas, como o Pronaf e as compras da agricultura familiar. Mas se o sujeito tem três vacas, ele ganha um pouco mais e compra mais uma vaca, já não pode mais participar do programa, embora o que ele conquistou não seja suficiente para caminhar sozinho. A outra alternativa é o cooperativismo, um movimento liberal que permite sobreviver, pois propicia que se ganhe escala. Oferece insumo técnico e agrega valor na ponta, com a industrialização do produto. É o único caminho no regime liberal que permite ao pequeno sobreviver. Mas a cooperativa precisa ter claro que é um instrumento e não um fim em si.

Escolhas – Quando acaba a necessidade de expandir o território e se pode falar em desmatamento zero?

Rodrigues – Com tecnologia não é preciso abrir mais áreas, a não ser onde é edafoclimaticamente recomendável continuar plantando. O zoneamento ecológico-econômico (ZEE) é central para fazer o planejamento de longo prazo. O ZEE ainda indica as áreas abertas que precisam ser recuperadas e dá prêmio para quem fizer isso. Outro tema importante é o pagamento por serviço ambiental (PSA), do qual muito se fala, mas pouco se faz. Precisa ter mecanismos que valorizem a atitude ambientalista. Todo mundo vai fazer no momento em que se valorize mais a árvore em pé que a deitada. O Código Florestal compatibilizou economia e meio ambiente, mas na base do achismo. Tem que botar ciência nisso. O século XXI tem que alimentar o mundo sem destruir os recursos naturais.