Entrevista do mês: Joaquim Bento de Souza Ferreira Filho

Modelagens ajudam a avaliar políticas públicas

Metodologia desenvolvida por pesquisador da Esalq é usada em estudo para medir efeito socioeconômico de zerar desmatamento no país

Trabalhar com modelos computacionais que possam calcular os efeitos de políticas públicas no futuro é fundamental para que se possa medir sua eficácia e discutir sua pertinência. Professor do departamento de Economia, Administração e Sociologia da Escola Superior de Agricultura “Luiz de Queiroz” da Universidade de São Paulo (Esalq/USP), Joaquim Bento de Souza Ferreira Filho conta que essa é a importância do estudo que está sendo realizado pelo Instituto Escolhas – do qual é um dos responsáveis -, que vai estimar os impactos de zerar o desmatamento no Brasil.

Ferreira Filho, que é agrônomo, mestre em Economia Aplicada e doutor em Economia pela USP, e pós-doutor pelo Centre of Policy Studies, da Monash University da Austrália, trabalha com modelos de análise de política agrícola no Brasil desde 2002 e diz que as modelagens ficarão cada vez mais sofisticadas, por incorporarem cada vez mais variáveis, tornando seus resultados mais precisos e confiáveis. O estudo em andamento trará um recorte fundiário e econômico, propondo olhar a extensão do desmatamento zero em um modelo estado por estado, para saber qual será o reflexo do PIB em cada estado do país e nas áreas florestais, em função de políticas de desmatamento zero que poderão ser adotadas pelo Brasil.

Escolhas – Como é o modelo que está sendo utilizado para o estudo sobre desmatamento zero?

Joaquim Bento de Souza Ferreira Filho – Desde 2002, trabalho no desenvolvimento de um modelo computacional para análise de política agrícola no Brasil em parceria com o professor Mark Horridge, da Universidade Victoria, de Melboune (Austrália). Como trabalhamos com a política de uso do solo, o desflorestamento está incluído. Esse tema tem ganhado bastante importância recentemente por conta dos efeitos das políticas ambientais na economia. Antes, se falava que era preciso manter a floresta por conta da biodiversidade e de questões ambientais. Hoje, sabemos que esse valor é alto, mas ainda difícil de medir. Mas temos avançado na incorporação dos dados de desmatamento no grande modelo econômico brasileiro que trabalhamos, porque a agricultura se expande em novas áreas, que são áreas de florestas. Neste estudo do Escolhas, estamos trabalhando com os dados por bioma, com destaque para a Amazônia e o Cerrado, que são as grandes fronteiras agrícolas atuais. Essa forma de análise traz mais complexidade para a análise, pois os limites dos biomas não coincidem com as fronteiras dos estados.

Escolhas – O que essa modelagem consegue medir?

Ferreira Filho – O modelo consegue calcular o valor da perda de produção agrícola e pecuária a partir do que não será desmatado ou reflorestado, além das perdas ou ganhos sociais associados a essas políticas ambientais. Em termos ambientais, o modelo avalia apenas as questões relativas às emissões de gases de efeito estufa. Não conseguimos captar os impactos para a biodiversidade ou para a quantidade de chuva quando reduzimos o desmatamento, apenas o custo da perda de produção agropecuária. Por exemplo, podemos saber qual o impacto de se deixar de incorporar 500 mil hectares ao processo produtivo, mas a análise é econômica-social e não leva em conta os ganhos ambientais. Essa é a fronteira da modelagem, mas estamos trabalhando para incorporar outras variáveis no futuro, como a chuva e o uso da água. Existem, porém, muitas incertezas em relação a esses parâmetros, estamos no começo.

Escolhas – Como são feitos os cálculos do impacto na socioeconômico?

Ferreira Filho – É um modelo de equilíbrio geral, porque calcula todas as relações em uma economia e não um setor único. Criamos uma linha de evolução da economia se o desmatamento continuasse nos padrões atuais. Depois insiro no modelo cenários de redução de desmatamento até 2030 e isso vai gerar uma economia diferente. Comparamos os dois cenários e podemos ver o que acontece. Quando reduzimos a área de pastagem em relação à situação “as usual”, temos um impacto no preço da terra, que é diferente por estado e por bioma. Com isso, a lucratividade das atividades é modificada, afetando o emprego nas atividades: salários são reduzidos, alguns trabalhadores migram para outras atividades. Se a produção agropecuária é reduzida, os preços devem aumentar. Esse produto agrícola vai para a agroindústria antes de ir para o consumidor, aumentando o preço em toda a cadeia e afetando o custo da cesta de consumo das famílias. Como o peso da alimentação é maior para as famílias mais pobres, elas são mais afetadas por essas políticas. Enfim, usamos boa teoria econômica para tentar modelar essa realidade.

Escolhas – Pelo que foi analisado até agora, zerar o desmatamento terá um impacto muito grande na economia?

Ferreira Filho – A perda na pecuária e na agricultura pela queda do desmatamento entre 2016 e 2030, como o país se comprometeu no Acordo de Paris, é pequena e deverá ter um impacto muito pequeno no PIB. O modelo percebe que há uma gigantesca área de pecuária subutilizada, que deve perder espaço para a agricultura, que tem mais emprego e lucratividade. A rentabilidade por hectare agregado no Brasil em soja, por exemplo, é maior do que na pecuária e isso minimiza o custo social. Além disso, o impacto negativo no PIB só acontecerá admitindo que não haja mudança tecnológica na pecuária. No entanto, à medida que o preço da terra aumente, é muito provável que haja no setor uma mudança tecnológica (manejo, tipo de gado) e intensificação da produção.

Escolhas – Qual a importância de fazer esses cenários?

Ferreira Filho – A grande vantagem de quantificar alguns aspectos das políticas públicas é que ajudam a checar argumentos pró e contra à sua implantação. Mesmo que os números não sejam perfeitos, podemos discutir, mudar as hipóteses e ver se os resultados mudam. Quando mais a teoria econômica e a capacidade dos computadores avançam, podemos usar mais informações disponíveis nos modelos e ter resultados mais precisos.