Entrevista do Mês: Ariaster Chimeli

Foto: Giane Portal

Falta treinamento objetivo e quantitativo na área de economia do meio ambiente no Brasil

Economia e meio ambiente são dois temas que possuem conexão. Para Ariaster Chimeli, professor-doutor do Departamento de Economia da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo (FEA/USP), o ponto de partida para entender a ligação entre os temas está nos ganhos e sacrifícios que fazemos. “Ao fazermos nossas escolhas de produção e consumo, geramos um impacto sobre o meio ambiente que, por sua vez, afeta o nosso bem-estar.” Para o economista, esta é uma área com muito espaço de crescimento no país. “Vindo de um professor e pesquisador de economia do meio ambiente, o diagnóstico da necessidade de promover o treinamento de estudantes soa como advogar em causa própria, mas contrastando o caso brasileiro e o norte-americano estou convicto de que o treinamento objetivo e quantitativo na área é uma carência que ainda existe no Brasil.”

Segundo Chimeli, a Cátedra Escolhas de Economia e Meio Ambiente, do Instituto Escolhas, ao dar bolsas de estudo na área, está colaborando para diminuir essa lacuna. O próximo lançamento, pela Cátedra, de um Hub de Estudos em Economia e Meio Ambiente também tem, para o professor, um grande potencial de contribuir para as atividades de estudantes e pesquisadores. “Essa iniciativa pode facilitar a pesquisa através de acesso simplificado à informação e sinalização de temas de interesse na comunidade de economistas”, disse.

 Escolhas – Qual a importância de unir as questões de economia às questões de meio ambiente?

Ariaster Chimeli – Questões de economia e meio ambiente estão naturalmente unidas. Existe uma percepção que economia estuda o dinheiro ou como faz o mundo girar. Essa percepção é incorreta. Na sua essência, a economia estuda as escolhas que fazemos tanto no nível individual quanto social e envolvem ganhos e sacrifícios. Esse é o ponto de partida para entendermos a ligação entre a economia e o meio ambiente. Ao fazermos nossas escolhas de produção e consumo, geramos um impacto sobre o meio ambiente que, por sua vez, afeta o nosso bem-estar. Até aí, nada de mais, uma vez que todas as nossas escolhas envolvem alguma perda. Por exemplo, se investirmos em saúde, aqueles recursos não serão usados para investimento em educação. Sempre haverá um sacrifício e orientamos nossas escolhas de forma que os ganhos sejam maiores que as perdas. Mas existe um aspecto importante no caso de escolhas que impactam o meio ambiente: quando fazemos nosso balanço de ganhos e perdas, ignoramos perdas que nossas escolhas impõem a outras pessoas.

Escolhas – De que forma isso pode ser ilustrado?

Chimeli Um empreendedor, por exemplo, até pode ser afetado pela poluição do ar que sua fábrica gera, mas entre o balanço de lucros da sua firma e os danos à sua saúde, ele pode ainda assim sair ganhando. No entanto, quando faz sua escolha com esse raciocínio, ele ignora os danos da poluição impostos a milhares de pessoas que, como ele, são afetadas. Do ponto de vista social, faz sentido pesar todos os custos e benefícios de uma escolha e não apenas aqueles que afetam o poluidor. Nesse exemplo da fábrica, ignorar os danos causados a terceiros implica em poluição excessiva. O raciocínio econômico foca no balanço de benefícios e custos tanto para a firma quanto para o resto da sociedade. Como exemplos de benefícios, podemos citar a geração de empregos e o aquecimento da economia local, dentre outros. Do lado dos custos, temos os gastos privados da firma, os danos à saúde e os danos ambientais que afetam a economia e o bem-estar. Com esse olhar, a economia nos ajuda a diagnosticar a fonte de problemas ambientais em contextos diversos e possíveis soluções para esses problemas.

Escolhas – Como é possível estimular a pesquisa dentro dos temas de economia e meio ambiente no Brasil?

Chimeli – O debate sobre a ligação entre a economia e o meio ambiente é antigo no mundo desenvolvido e foi frequentemente estimulado por problemas ambientais graves que geraram discussão sobre políticas públicas. Já em 1306, o Rei Edward restringiu o uso de certos tipos de carvão em Londres devido à poluição do ar na cidade. Na primeira metade do século XX, a reflexão econômica sobre problemas ambientais ganhou corpo, mas foi a partir do início dos anos 1970 que a pesquisa em economia e meio ambiente decolou, em grande parte estimulada pela criação da Environmental Protection Agency nos Estados Unidos. Desde então, houve um enorme desenvolvimento da teoria da economia do meio ambiente e das ferramentas para análise de uma quantidade crescente de dados.

Escolhas – No Brasil, como funciona?

Chimeli – No caso brasileiro, décadas de restrição à democracia, instituições fragilizadas, escassez de dados e problemas macroeconômicos profundos relegaram a pesquisa econômica de diversos problemas a um plano secundário. Esse foi o caso da economia do meio ambiente, apesar do agravamento progressivo de problemas ambientais no país. Muitos profissionais se dedicam à questão ambiental no Brasil há décadas, mas a economia do meio ambiente ficou limitada a discussões conceituais muitas vezes estimulada por uma agenda mais ideológica do que científica. Outro fator importante era a escassez de oportunidades de treinamento moderno de economistas interessados na área. Acredito que estamos em um momento excelente para experienciarmos um crescimento da pesquisa em economia do meio ambiente no Brasil. Apesar dos enormes problemas econômicos e institucionais que enfrentamos, temos problemas ambientais graves que continuarão a demandar soluções, além de uma sociedade com mais espaço para cobrar políticas públicas eficazes, instituições progressivamente mais fortes, melhor acesso a dados e um maior número de economistas talentosos e bem treinados.

Escolhas – As pesquisas em economia do meio ambiente têm evoluído?

Chimeli – O estigma de que a economia do meio ambiente é uma bandeira ideológica pouco objetiva e está progressivamente ficando para trás, em grande parte pela importância relativa que o tema ganhou nos melhores veículos de divulgação de pesquisa econômica. Falta ainda um treinamento especializado em maior escala de jovens economistas, assim como vem acontecendo com áreas como economia do trabalho, da educação, da saúde, do crime e de economia política. Outro aspecto é o investimento na coleta de mais dados ambientais. Embora alguns dados disponíveis atualmente já possibilitem pesquisa de alto nível na área, existe uma constrangedora carência, em nível nacional, de dados como os de poluição do ar e de emissões de empresas. Sem esses dados ficamos sem boas condições de produzir pesquisas que possam contribuir para o desenho e avaliação de políticas públicas.

Escolhas – Como estimular estudantes a incorporar as questões de meio ambiente à economia?

Chimeli – O primeiro passo é o treinamento de estudantes em economia do meio ambiente. Sem informação sobre o que a área estuda e como a economia organiza e analisa problemas ambientais, a chance de boas cabeças se apaixonarem pelo tema diminui bastante. Vindo de um professor e pesquisador de economia do meio ambiente, o diagnóstico da necessidade de promover o treinamento de estudantes soa como advogar em causa própria, mas contrastando o caso brasileiro e o norte-americano estou convicto de que o treinamento objetivo e quantitativo na área é uma carência que ainda existe no Brasil. Além de garantir o treinamento de alunos, outras iniciativas são extremamente importantes. Prêmios para monografias, dissertações e teses na área são uma forma de se estimular o interesse em economia do meio ambiente. Bolsas de estudo para alunos de mestrado e doutorado trabalhando com economia e meio ambiente, como aquelas financiadas pelo Instituto Escolhas, têm grande importância por dois motivos: elas não apenas dão o incentivo a estudantes para fazer pesquisa na área, como sinalizam que a iniciativa privada atribui valor à economia do meio ambiente. Bolsas de agências governamentais são muito importantes, mas é inegável que iniciativa privada e mercados geram poderosos incentivos na escolha de uma carreira. Esses incentivos contribuem para a formação de uma massa crítica de alunos interessados no tema. Por fim, é importante manter o diálogo com o resto do mundo, por exemplo, trazendo pesquisadores de renome para apresentar seu trabalho e interagir com alunos, ou enviando alunos para apresentar suas pesquisas em congressos internacionais.

Escolhas – O que você recomenda como leitura dentro desses temas?

Chimeli – Existem excelentes livros, revistas e artigos especializados em economia do meio ambiente cobrindo os mais diversos tópicos e qualquer lista de leitura será incompleta. Levando isso em consideração e pensando em um público geral, recomendo como ponto de partida o livro Trade-offs: An introduction to economic reasoning and social issues, do professor Harold Winter. Esse livro não trata de economia do meio ambiente diretamente, mas da natureza da economia e como ela aborda problemas sociais. Esse livro tem uma linguagem simples, não usa gráficos, números ou tabelas e é uma excelente introdução à economia. Em seguida, o livro Economics of the Environment: Selected Readings, editado pelo professor Robert Stavins, é uma excelente introdução não técnica a questões fundamentais da economia do meio ambiente. Para aqueles interessados em um tratamento um pouco mais técnico, mas no nível de graduação, recomendo o livro Environmental Economics, do professor Charles Kolstad. Por fim, as associações americanas e europeia de economia do meio ambiente criaram a Review of Environmental Economics and Policy, uma revista não técnica com artigos escritos por especialistas em diversas áreas e com ênfase em políticas públicas. Essa revista é uma ótima introdução à fronteiras de pesquisa relevantes para políticas públicas para o meio ambiente. Infelizmente a literatura em português para a área é bastante limitada.

Escolhas – O Instituto Escolhas está para lançar o Hub de Estudos de Economia e Meio Ambiente – uma plataforma online de pesquisa bibliográfica sobre a temática economia e meio ambiente. Qual a importância de uma plataforma como essa e quais benefícios ela pode gerar? O Hub pode ser considerado um estímulo aos pesquisadores?

Chimeli – O Hub de Estudos tem grande potencial de contribuir para as atividades de estudantes e pesquisadores. Essa iniciativa pode facilitar a pesquisa através de acesso simplificado à informação e sinalização de temas de interesse na comunidade de economistas. Já existem excelentes economistas realizando pesquisa de alto nível e orientando trabalhos em economia do meio ambiente no Brasil, mas há muito espaço para a área crescer na nossa sociedade. Uma forma fundamental de contribuir com esse crescimento é a facilitação do acesso à informação sobre pesquisa e a dados. O Hub de Estudos dá passos importantes nessa direção.

Para saber mais sobre o trabalho de Chimeli, acesse sua página: https://economiadomeioambiente.com/