Aumento da frota de veículos a gás natural reduz preço de combustíveis

Tese de mestrado de bolsista da Cátedra Escolhas mostra que fenômeno não é garantia de redução de emissões

O aumento da frota de veículos movidos a gás natural veicular (GNV) no Estado Rio de Janeiro reduziu o custo dos demais combustíveis (gasolina e etanol). Esta é a principal conclusão da tese de mestrado do economista Roberto Amaral Santos – bolsista da Cátedra Escolhas de Economia e Meio Ambiente -, defendida na última sexta-feira (11/05), na Fundação Getulio Vargas (FGV), em São Paulo. A banca avaliadora contou com a participação do orientador João Paulo Cordeiro de Noronha Pessoa, da Escola de Economia de São Paulo da FGV, do coorientador Ariaster Chimeli, da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo (FEA-USP), além de Cristine Campos de Xavier Pinto, também da FGV, e Leonardo Bandeira Rezende, da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), que participou via internet.

Segundo Santos, a ideia do estudo partiu da constatação de que, como para poder rodar com gás natural o motorista deve converter seu veículo e como esse combustível custa aproximadamente metade da gasolina e do etanol por quilômetro rodado, quem investe na conversão vai abastecer com GNV sempre que o combustível estiver disponível, reduzindo a demanda pelos demais combustíveis, impactando negativamente seus preços.

“A análise, realizada para o período de 2002 a 2008, comprovou essa hipótese e mostrou que, para cada 1% de aumento da frota movida a gás natural, há uma queda de preço de aproximadamente R$ 0,02, no preço da gasolina (e R$ 0,015, em sua margem de lucro), e R$ 0,007 no preço do etanol (e R$ 0,027, na sua margem de lucro). Com isso, se um município no Rio de Janeiro, que estivesse entre os 60% com maior frota de veículos a gás natural, aumentasse sua frota e ficasse entre os 40% de cidades com maior porcentagem de veículos com esse combustível, o custo da gasolina cairia em R$ 0,09 e o do etanol em R$ 0,03”, explicou o pesquisador.

Meio ambiente

50e17f45-20b8-4489-9a47-b3d0d2dd8225A partir desses dados, Santos buscou saber qual o impacto desse efeito sobre as emissões de gases de efeito estufa no estado, “já que há uma cultura de se considerar o GNV um combustível mais limpo”, explicou. “Sabíamos que, embora esses veículos emitam menos dióxido de carbono que os movidos a gasolina, o mesmo não vale para muitos outros poluentes, como o metano, o monóxido de carbono ou os óxidos de nitrogênio, por exemplo. Além disso, ao induzir uma queda no preço da gasolina e do etanol, o aumento da frota a gás natural estimula um maior consumo desses combustíveis pelos motoristas de carros não convertidos, levando a maiores emissões”, disse.

Considerando esses dois efeitos, o pesquisador chegou à conclusão de que, em 2008, houve uma redução de emissões entre 18,6 milhões e 1,6 milhão de toneladas de carbono no Estado do Rio de Janeiro, ou seja, algo entre 0,05% e 0,005% das emissões globais de CO2 no estado. Santos ressalva, porém, que esse valor se refere apenas aos poluentes que saem do escapamento dos veículos e não considerou o processo de produção dos combustíveis, o que pode alterar esse resultado. Isso acontece porque, enquanto o gás natural é um derivado de petróleo, o etanol é um combustível renovável, que sequestra carbono ao ser produzido.

Em 2008, o Brasil possuía a terceira maior frota de veículos movidos a gás natural do mundo (Em 2016, ocupava a sexta posição). O Rio de Janeiro tem a maior frota GNV do país, com mais de 10% dos veículos movidos a esse combustível, seguido por São Paulo e Minas Gerais. Nos demais estados, em geral, o gás natural é pouco relevante.