Agricultura no semiárido precisa de adaptação para enfrentar mudanças climáticas

 

Com temperatura em alta, pequenos agricultores são os mais atingidos e necessitam de crédito e assistência técnica

As mudanças climáticas terão impacto na produção agrícola do semiárido brasileiro e, para enfrentar esse desafio, é preciso promover o acesso a educação, tecnologia e crédito, principalmente para os pequenos produtores. Essa é a conclusão do estudo The impacts of climate changes on agriculture production and adaptative strategies for family farmers in the Brazilian Sertão, destacado pelo HUB de Estudos do Instituto Escolhas.

O trabalho, desenvolvido por pesquisadores do Núcleo de Economia Agrícola e Ambiental da Universidade Estadual de Campinas (NEA/Unicamp), analisa os impactos de mudanças climáticas na produção agrícola do semiárido da Bahia e como estratégias adaptativas podem atenuar esses efeitos entre os agricultores familiares, segmento que deve ser mais atingido por esses efeitos. O estudo lembra que o Sertão brasileiro é a região semiárida mais populosa do mundo e apresenta as maiores taxas de pobreza e insegurança alimentar do Brasil.

Conforme os pesquisadores do NEA – Alexandre Gori Maia, Daniele Cesano, Bruno C. B. Miyamoto, Gabriela Santos Eusebio e Patrícia Andrade -, as mudanças climáticas observadas no semiárido baiano nos últimos 40 anos são significativas, com um aumento de temperatura de 0,27º C por década e temperaturas máximas passando de 28,7º C nos anos 1970 para 30,2º C nesta década. Paralelamente às mudanças climáticas, há um acelerado abandono de áreas rurais e queda da produção agropecuária. Após episódios de grandes eventos climáticos (como secas), muitos pecuaristas se desfazem do gado.

Focado na produção de leite e milho, o trabalho mostra que esses fenômenos tendem a se agravar e, possivelmente, estão subdimensionados. Os pesquisadores, porém, constataram que os agricultores familiares que recebem orientação técnica contam com uma produção de caprinos e ovelhas bastante superiores aos demais, o que provavelmente está associado aos esforços das agências locais de extensão agrícola na disseminação dessas atividades na região. Também a fertilização tende a gerar resultados positivos e significativos em praticamente todos os tipos de atividade, enquanto a rotação de pastagens gera efeitos positivos e substanciais na produção de leite e na pecuária.

O estudo clonclui que promover o acesso à educação, ao crédito e à orientação técnica tem mostrado impactos significativamente positivos em diferentes tipos de produção e devem ser priorizados, bem como medidas para aumentar a tecnificação do sistema de produção ou mesmo a integração de agricultores familiares nas cadeias de suprimentos na região. Nesse sentido, as instituições do governo local, estadual e federal precisam introduzir novas medidas de resiliência economicamente eficientes. Entre os principais vínculos de fortalecimento da resiliência climática, os pesquisadores sugerem um sistema produtivo de referência de resiliência climática, crédito orientado para financiar este sistema, assistência técnica para sua implementação, fortalecimento das instituições cooperativas, agroindustrialização de produtos para agregar valor e melhorar o acesso aos mercados.

Agricultura de baixo carbono

Para que isso aconteça, porém, é preciso que o país realize investimentos. Um estudo lançado no ano passado pelo Observatório ABC, da Fundação Getulio Vargas, estimou os custos econômicos para atingir as metas do Plano de Agricultura de Baixo Carbono, que incluem tecnologias com menos emissões de carbono, que são mais resilientes, além de assistência técnica.

De acordo com Angelo Gurgel, coordenador do Observatório ABC e do estudo Impactos Econômicos e Ambientais do Plano ABCa pesquisa conta com um modelo dos tipos de uso da terra no Brasil, apresentando cenários que tentam capturar o Plano e o Programa ABC. Nos cenários elaborados, foram considerados os custos para o Brasil conseguir recuperar 15 milhões de hectares de florestas e para a expansão da área de integração lavoura-pecuária-floresta (iLPF) em quatro milhões. Os resultados obtidos ao forçar o modelo a atingir as metas do ABC apontam custos de R$ 31,3 bilhões, com gastos de recuperação de pastagens, no cenário de áreas prioritárias (que estão principalmente no semiárido), e R$ 26,7 bilhões, no cenário de livre alocação.

Segundo o pesquisador, forçar a implementação do ABC nas áreas prioritárias custa mais caro para a sociedade, porque essas áreas têm maior risco e menor aptidão agropecuária. No entanto, o estudo conclui que o conceito de áreas prioritárias precisa considerar os desafios econômicos, mas também os potenciais benefícios ambientais associados à recuperação de pastagens, que tendem a ser maiores nas regiões mais degradadas.